Deus no exílio

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Deus está em missão. Talvez isto soe estranho, afinal, entende-se que a tarefa missionária é uma exclusividade do ser humano. Entretanto, antes de qualquer missão que parta da comunidade cristã, deve-se reconhecer que a missão em si mesmo está enraizada no próprio Deus, e que, ele mesmo se engajou em um incrível drama em busca de sua criatura amada: o ser humano.
 
Toda missão envolve o envio, e o envio relaciona-se com um resgate à distância. Distância que nem sempre se traduz em grandeza física.  Abrange também, esta distância existencial, angustiante e sofrida, estes lugares ermos que a alma se coloca.
 
A narrativa bíblica, em geral, é uma narrativa de exílio e resgate ou cativeiro e redenção. Mas, esta também é a narrativa da humanidade.  Perto dos “rios da Babilônia”, nas celebrações de uma tribo indígena ou nos apartamentos apertados das grandes cidades, os cativos criam ritos, símbolos, cultura e religiosidade. Cantigas, poemas e memória, orbitam sempre ao redor de histórias sobre a terra perdida, o lugar escondido, o jardim secreto ou do grande êxodo. Em troca da angústia do exilado, normalmente oferecem-se utopias, promessas de redenção, mitos divinos e expectativas messiânicas. O sonho do cativo é sempre sair da mão do tirano, liberta-se do opressor, encontrar paz para alma e voltar pra casa.
 
C. S. Lewis sempre emociona quando relata seus olhares para a paisagem e como era acometido por esta sensação de estar perdido. Faltavam-lhe palavras para descrever o grande mistério que lhe acometia. Dizia que para além do horizonte existe algum lugar bucólico e familiar. Quem nunca experimentou este misterioso saudosismo? A saudade de casa, do tempero da mamãe e da mangueira que agora está enorme. Quem nunca sentiu um vazio angustiante e um abismo de dar vertigem, só de pensar que se pode estar muito longe daquele lugar de origem? Longe inclusive de nossas memórias infantis. Certamente este é o lamento dos exilados. O grito dos que “penduraram harpas no salgueiro”, a oração do profeta com os olhos em Jerusalém e o lamento dos anciãos sob o Templo em ruínas. Não muito distante, está o choro do cordelista, que em suas cantigas lembram-se dos saudosos tempos da caatinga. Da viola do sertanejo que se lembra do cheiro do serrado. Quantos cantos de exílio, quantos lamentos entoados em terra estranha!
 
Tudo isso, porque o homem se negou a conhecer Deus em Deus e optou pela jornada independente e pela peregrinação solo. O que se vê na queda?  Homem e mulher aos tropeços, em exílio, vivendo errante pelo mundo. O filho pródigo que foi embora da casa de seu pai. O tombo foi muito grande, agora ficou muito difícil saber o caminho de volta.
 
Missio Dei: como era chamada a “missão de Deus” pelos antigos mestres cristãos.  Deus, sendo rico em misericórdia, desdobrou-se em tríplice amor relacional, único Deus, mas rico em todas as cores de sua diversidade amorosa, graciosa e trinitária. O Pai é o que envia, o Filho é o enviado e o Espírito é o que guia. O Pai envia o que tinha de mais precioso, seu Filho Jesus, expondo-o aos perigos da missão e da angústia, inerentes ao exílio e cativeiro.
 
Na apostolicidade de Jesus, Deus assume para si a tarefa de trazer a humanidade de volta pra casa. Jesus, como Moisés, ou José, abre mão de suas vestimentas reais, para assumir a roupa dos escravos. O Filho de Deus recebeu na sua carne as marcas da missão, o martírio e o sofrimento. Ele absorveu o impacto do julgamento, ele trouxe a ovelha perdida para o aprisco e assumiu a humanidade para si.  Sim, Deus em Jesus, restitui a dignidade humana, a ponto de ser dito aos resgatados: “tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hb 12:22).
 
Não há plena realização fora de Deus, e não há meios de se chegar a ele, sem vínculos com aquele desceu aos lugares mais baixos para resgatar os cativos.  Está é a obra de Deus, como disse Jesus: “que creiais naquele que por ele foi enviado.” (João 6.29).
Feliz natal!
 
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Igor Miguel, teólogo, pedagogo, mestrando em língua hebraica pela USP (Universidade de São Paulo), membro da Igreja Esperança em Belo Horizonte (MG) e autor do blog Pensar...

Ricardo Matense

Vereador de Verdade

Ricardo Matense é Vereador no município de Mata de São João, Bahia. Na Câmara Municipal é presidente da Comissão dos Direitos da Criança, do Adolescente e do Jovem e é o relator da Comissão de Legislação, Justiça e Redação Final.

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